Com o aparecimento do movimento trance nos anos 90 surgiu também uma peculiar característica nas festas, que até à data o movimento techno não tinha conseguido revolucionar, - a decoração. Deodato Evangelista e Gi Carvalho são, respectivamente, os nomes reais por trás de TK Project e Elektra, e são os dois estetas e líderes das duas equipas de decoração de KIN 2010. O trabalho que desenvolveram durante uma década de experiência em eventos, garante-lhes hoje um estatuto que só os grandes promotores conseguem aceder. A Psyart pôs-se à conversa com estes dois protagonistas que, ao contrário dos djs, raramente vemos e conhecemos. Para acompanhar a leitura, convidamos a ouvir Space Designers, uma das actuações ao vivo para a área Chill Out. Boas leituras!!
1. Desenhar, decorar, montar, operar, programar, gerir são tudo verbos do vosso léxico profissional. Quando é que começaram a fazer parte da vossa vida e como é que se desenvolveu o gosto?
Gi: Sempre gostei do lado visual, do impacto das imagens e de luzes caseiras acolhedoras. Depois de um curso técnico de iluminação de espectáculos comecei a trabalhar na área, onde o meu tempo é maioritariamente ligado ao teatro. Na mesma altura já estava envolvida com a música e áreas ambient, ainda no começo, e aí fazia de tudo, gerando com assim a minha origem na decoração, produção e programação. Mais tarde fiz uma proposta para organizar as performances do Boom, e com a evolução do projecto veio a decisão de querer mais da produção e programação. Decidi tirar um curso de produção e gestão de espectáculos e afirmar este gosto. Confesso que o que mais me atrai dentro desta área é a programação, a criação de eventos e conceitos. Não deixei de trabalhar em luz, e vou continuar a combinar as duas coisas. A decoração é algo que fica no meio, pois através da minha experiência total consigo criar e produzir espaços estéticos e funcionais, quer através do meu trabalho de luz, quer recorrendo a artistas de cenografia, pintura e escultura. Além dos trabalhos em si, agrada-me os contextos onde são realizados, a quantidade de pessoas que se conhece e com que se trabalha. Em ambas as áreas há uma fase de trabalho de preparação, que culmina sempre com eventos ou espectáculos, e tenho todo o gosto em trabalhar onde os outros estão em modo de lazer e cultura.
Deo: Eu estudei desenho técnico no secundário, já tinha algum gosto por desenhar e foi aí que desenvolvi técnicas de desenho. Depois fiz um curso técnico de tatuagem/body piercing, actividade que exerço paralelamente com a produção e decoração de espectáculos. Quando comecei a ir a festas em 96/97, ganhei um gosto especial por decorações pois é um ambiente fascinante e poder aliar a diversão ao trabalho é excelente. Este meio em Portugal é relativamente pequeno, tive a oportunidade de colaborar com pessoas com as quais aprendi bastante e comecei a desenvolver os meus próprios trabalhos, foi um processo normal e evolutivo que continua ainda hoje, pois todos os dias aprendo coisas novas.
2. Na festa KIN III vão decorar a area chill out (Gi) e o dance floor (Deo). O que é que o publico pode esperar?
Gi: Algo simples, mas eficaz!
Deo: O público pode esperar uma decoração dentro do que tenho feito nos últimos anos. Vou criar um cenário em licra, material que marca o meu estilo preferido e que permite criar uma envolvência e um cenário bem agradáveis. Visto o tema ser os quatro elementos, vou recrear esse tema com um céu e cobrir a tenda, que representa a água e com umas peças tridimensionais. No centro um sol com uns moinhos a representar o fogo e o ar, no palco representar a terra. Vou ainda fazer um portal na entrada para a festa e iluminar bem todo o recinto.
3. Noutros contextos, o vosso trabalho vai além da responsabilidade de decorar. A produção e organização de todos os aspectos duma área ou evento pode ser um quebra-cabeças. Contem-nos sobre o que andaram a fazer nos últimos anos.
Gi: Bom, na produção cresci dentro dos eventos alternativos, com as áreas de ambient e com a das performances, e é aqui que se centra a minha experiência e portfolio, sendo que a maior e melhor página é sem dúvida os Booms desde 98 e as festas da Good Mood desde 97 até á volta de 2007. Desde 2008 não tenho acção directa na área ambient do Boom. Isto deve-se ao facto que a Live Art Zone evolui e cresceu muito dentro do festival, e era muito mais lógico eu dedicar-me ás performances, e ficar o Paulo a gerir o ambient. Não deixei de forma alguma de querer ou gostar de trabalhar com ambient e chills outs, é tudo uma questão de oportunidades e tempos.
Deo: Sem dúvida que produzir um evento de raiz é um trabalho muito mais complexo e que eu adoro fazer. Tenho produzido várias festas e vou continuar a fazê-lo, pois é uma paixão que tenho. Nestes últimos anos tenho feito trabalhos bem aliciantes, não só no panorama de festas trance mas também em grandes festivais e outros ambientes como concertos, discotecas, passagem de modelos, apresentações de automóveis, conferências, etc. Bom será dizer que em Portugal muito poucos são os produtores de eventos que se preocupam com a parte decorativa/ cénica das suas produções. Tenho trabalhado bastantes vezes fora de Portugal o que é sempre um aliciante extra, tanto no aspecto de mostrar o meu trabalho lá fora como em estar em contacto com outras culturas e aprender com isso.
4. Gi, conta-nos um pouco mais sobre as experiências como Directora de áreas do festival Boom.
Gi: É um trabalho intenso, 24/7. Há uma grande ansiedade e expectativa sobre as escolhas feitas e o seu resultado, e sobre os erros, pois todos os anos os cometo. A gestão do orçamento também não é fácil, pois tenho muita coisa a fazer com um valor que não é tão alto como provavelmente algumas pessoas pensam, e tenho que distribui-lo da melhor forma, e nada daquilo estaria ali se não houvesse uma grande colaboração dos artistas e trabalhadores em geral. Toda a produção e planeamento são da minha responsabilidade, quer decisiva quer executiva. Não existe o trabalho e a casa, a vida profissional e a vida pessoal, tudo se mistura. Sou eu e um computador carregado de e-mails, folhas de excel compridas, ficheiros e mais ficheiros de artistas, desenhos técnicos e textos. Apenas durante a montagem e o festival tenho uma equipa a trabalhar comigo, e a seguir á programação o que mais me atrai são os recursos humanos, e sem os quais o meu trabalho não existe. A chegada ao terreno traz uma nova fase, uma vila temporária, que vemos e sentimos crescer dia após dia, e que se transforma radicalmente com a chegada do público. O festival em si é o culminar de tudo, é bastante cansativo, mas gera também uma energia boa e única, ao ver finalmente todo o trabalho a ser absorvido e a fazer parte de um grande conjunto como é o Boom.
5. Deo, conta-nos um pouco mais sobre a experiência de decorar o dancefloor do festival Freedom.
Deo: Foi “espectacular”, não foi a primeira vez, já o tinha feito em 2007 e voltar a fazê-lo foi muito bom, trabalhei com uma equipe responsável e com muitos bons conhecimentos do que é produzir um festival com a dimensão do Freedom. As minhas responsabilidades eram muito mais do que decorar. Foi um projecto que desenhei e construí de raiz, não só o dance floor, todas as áreas foram desenhadas e construídas por mim à excepção do chill out que foi um projecto do Célio Costa. A equipe de montagem foi fantástica, sem o empenho de todos nunca teria sido possível, havia um ambiente excelente diariamente apesar das dificuldades do calor alentejano e da aridez do terreno. Conseguimos um produto final bastante bom e isso deixa-me com boas perspectivas para o futuro. Espero em 2011 repetir os “três meses de férias no Alentejo” ahhahah.
6. Dêm-nos alguns nomes de criadores e decoradores que apreciam.
Deo: Aprecio bastante o trabalho do Giger, tanto a nível de pintura /desenho como a nível de escultura.
Gi: Luís Guerra, Joe Nishimura, Rodrigo Ulson, Pedro Carvalho/Transformar-te, Rafael Calazans, Cosmic Walkers, Pedro Feijão, Avikal, Photon, Mutoid Waste Company, etc etc etc……
7. Gi, o teu trabalho como dj de ambient comecou mais tarde, o que te levou a explorar este teu lado musical?
Gi: Na realidade tudo começou por acaso. A Good Mood ia fazer uma festa só com mulheres a tocar no dancefloor e o Paulo achou por bem alinharmos no espírito. Mas olhámos à volta e não havia gajas para tocar….reunimos um grupo de 4, Violeta, Guida, Isabel (aka Las’Hark) e eu. Gostei da experiência e continuei. Gosto muito de ouvir música e sou fã do conceito de dj, e estar do outro lado dos decks é sem dúvida um desafio. Adoro música ambient e todas as suas possibilidades, e ficar ali a tocá-la e a ver as reacções das pessoas é muito interessante, assim como o processo de composição e descoberta de sets. E gosto particularmente do registo da presença do dj de ambient e chill out, sem devaneios….é como partilhar a nossa sala de estar….
8. Deodato, foste decorador em alguns festivais em Portugal e noutros países. Fala-nos sobre as experiências no estrangeiro e em que se diferenciam das produções nacionais.
Deo: Sim, já decorei e criei as estruturas de vários festivais de renome mundial e já trabalhei com inúmeras produtoras de eventos. As diferenças não são muitas ou quase nenhumas em Portugal trabalha-se a um nível igual ao de outros países onde já trabalhei. É claro que em Marrocos arranjar alguns materiais é muito mais complicado, mas quando se quer realmente fazer o trabalho com qualidade vamos á “guerra” e fazemos mesmo.
9. Quais são os teus recursos e influências?
Deo: Eu adoro trabalhar com têxteis e boa iluminação, a luz é uma parte fundamental no espectáculo, seja ele qual for. Trabalho muito com “licras” pois é um tipo de têxtil que posso adaptar a qualquer tipo de decoração, é bastante versátil. Não sou muito influenciado por outros trabalhos, crio as minhas próprias peças e cenários.
10. Gi, és conhecida pelo teu fantástico trabalho na área de iluminação para teatro. Esta actividade influencia de alguma forma as tuas escolhas como decoradora duma área chill out?
Gi: A iluminação é decorativa, funcional e cria ambiente. A cor, efeitos, intensidade e direcção da luz podem fazer a diferença entre um ambiente acolhedor e atraente ou um ambiente desagradável e pouco convidativo. A luz tanto pode ser o elemento base, como pode ser algo que dá forma e presença a peças de decoração ou estruturais existentes. E sem dúvida que o teatro é óptimo para esta aprendizagem, pois a função da luz inclui exactamente dar forma e presença a pessoas e cenários, marcar espaços e acções, criar emoções e ambientes.
11. Ainda para a Gi, chegámos à conclusão que és uma profissional muito versátil, especialmente na área das festas trance? Presumimos que haja uma séria paixão pela cultura. Fala-nos sobre isto.
Gi: Não posso dizer que tenha uma paixão pela chamada cultura trance, até porque, à excepção da música em si, o ambiente geral e a forma de estar não são originais do trance, e fazem parte de outros tempos e culturas. Felizmente conheci a cultura trance no seu início, e tive o privilégio de assistir e participar da pureza característica dos começos e das suas essências. Posso dizer sim dizer que sou adepta de ambientes, espaços e eventos alternativos, onde a expressão humana e artística são regra geral mais libertos dos preconceitos e obrigações gerais da nossa sociedade. Hoje em dia estou bastante desligada da cultura trance em geral, há vários anos que deixei de ouvir a música e em Pt só vou a eventos onde trabalho. Ocasionalmente posso ir a um ou outro evento no estrangeiro, ou porque toco como dj, ou porque vão estar amigos e pessoas interessantes, ou porque é num local bonito e natural. Para mim, o trabalho ou profissão dividem-se em 3 parâmetros básicos: o quê, onde e com quem.
12. Fizeste parte do mais significativo colectivo de ambient em Portugal chamado chilloutzone.org. Entretanto acabou. Diz-nos o que te apetecer...
Gi: Em 97 nasceu o colectivo Dreamlab-chilloutordie!, a equipa original que também incluía o Paulo (dj high) e a Isabel (dj Las’Hark). Durante anos criámos áreas de ambient e chill out, tratando de todos os pormenores desde o espaço á música, do computador á enxada. Câmaras de descompressão, como sempre gostamos de lhes chamar, prontas a receber pessoas e a permitir-lhes um variado leque de formas de estar, sempre acompanhados por sonoridades ambient. Chilloutzone.org é o colectivo em que apenas fiquei eu e o Paulo, que continuou a mesma linha de trabalho, e onde conseguimos adicionar o sonho antigo de editar compilações de música ambient. Todo este trabalho tem hoje apenas saída no Boom, e como disse anteriormente, o mais lógico era o Paulo continuar, e eu dedicar-me as performances. Todas as peças de decoração que vou usar na Festa Kin pertencem a estes dois colectivos, e decerto que algumas pessoas as vão recordar.
13. O teu nome está intrinsecamente ligado a história do ambient\chillout em Portugal. Como é que vês a influência do teu trabalho junto do público?
Gi: Bom, acho que sem dúvida contribuímos para a divulgação da música ambient e dos seus espaços acolhedores, nacionalmente e mesmo internacionalmente. Penso que o mais importante foram os trabalhos realizados com a Good Mood, nos Booms e no período áureo das festas, onde com as condições dadas pela produtora e muita dedicação conseguimos fazer boas áreas, arriscava mesmo dizer que algumas das melhores que existem dentro do género. E isso é a maior influência para mim, ter participado na oferta daqueles espaços ao público, aos músicos e djs.
14. Deodato, o TK Project tem um "filho" mais novo. Fala-nos sobre a TK Records.
Deo: TK records é uma pequena editora de música electrónica criada por mim em 2007 com o objectivo de promover a música nacional, editei duas compilações “Freaks Blast “ e “The Noise of Lights” e ainda o álbum de Sick Addiction “Demented Diary”, as coisas correram dentro da expectativa. As pessoas compram muito pouca música, preferem o download da Internet, isso não ajuda muito e as vendas são baixas, não dá para as editoras se lançarem em grandes aventuras. Neste momento é um projecto que está parado, se alguém tiver ideias para ele contactem.
15. Os teus trabalhos como decorador vão alem das festas trance. Fazer um evento trance é algo muito específico. Como é que olhas para este trabalho?
Deo: Sim, só para te dar um exemplo estou agora com dois projectos em mãos, um é fazer a decoração de vários espaços para um Festival Gay/Lésbico e outro é para uma festas de Carnaval. Dois trabalhos completamente diferentes em que tenho de pesquisar sobre os temas e depois recrear os cenários no local. É bastante divertido. A nível de festas de trance eu já há alguns anos tento fugir aos cenários carregados de flúor, pois isso para mim é passado. Tento apresentar trabalhos mais originais com boa iluminação e tentar trazer a discoteca para fora, eu sei que muitas pessoas não gostam de luz nas festas trance, mas eu gosto e é isso que tento e vou tentar dar ao público no futuro.
16. Para terminarmos, um budget maior significa uma decoração melhor?
Gi: Sim. Até porque o dinheiro traz níveis diferentes de realização, de dimensão, de estrutura, de detalhe. Mas também sou adepta do conceito “it’s not what you have, it’s what you do with it”.
Deo: Sim, não se pode fazer um Freedom Festival com o budget da festa “KIN III”. Já fiz bons trabalhos com orçamentos baixos, mas conseguia fazer melhor se houvesse mais orçamento. Sem dinheiro estou sempre condicionado, até a própria motivação para fazer o trabalho é inferior. É a minha profissão e para exercê-la com qualidade é preciso haver dinheiro, não podes pedir a um padeiro para fazer pão sem farinha.
"Life is not measured by the numbers of breaths we take, but by the number of moments that take our breath away"

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